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ode a sp

dez/2014 jul/2021 aqui cresci vivi e morri algumas vezes descobri alegria, mas não escapei de uma ou outra apatia corri, ora numa tentativa de acelerar a chegada do futuro quando o presente podia estar amargo, ora numa tentativa de aproveitar os últimos momentos do presente quando ele já virava passado sp desafiou o decurso do tempo pra mim, fez alguns anos caberem em poucos meses e, paradoxalmente, me fez riscar cada dia do calendário como se um ano valesse ufa, sp, vc se livrou de mim e eu de vc, mas como diria o filósofo contemporâneo djonga, abre seu peito e vê se me escuta, eu te amo, sua filha da puta  enfim, a efemeridade

pote, pavão, relógio

dou-lhes o que já conhecem de mim frase que por repetidas vezes repeti tão familiar quanto meus jogos de palavras inúteis úteis mesmo são seu conforto pós formação uma vez inteiro conteúdo e contexto clímax resolutiva o alívio é imediato como uma panaceia de todos os males outra que da boca não me sai mas não notem os moldes os formatos que dão suporte ao que quero dizer hoje não é sobre isso é sobre o muito que de mim já conhecem e eu volto a me repetir mostro que minhas facetas em ciclos andam e se exibem a cada par de anos já aprendemos que não são meros meses há que se completar a volta ao sol umas duas vezes e aí então me reexibo como um pavão cheio de penas coloridas ou como um relógio que agora marca a hora certa levado ao conserto para aquele ponteiro errado sou isso um pote que guarda conserva às vezes acaba às vezes tá cheia ando cheia apimentada colorida sei que é cedo tal como uma conserva recém-feita pode ainda não estar boa mas já me si...

17

17. É o que me diz o círculo vermelho feito à caneta em torno do número, bem no meio da folha do calendário preso à parede. O único número em destaque. Seus colegas de trás, cortados por um "x", como se nada mais valessem. Seus colegas da frente, em aberto, como nada tivessem a dizer. Corro os olhos um pouco acima e vejo o mês: outubro. Levo um susto. Como chegamos em outubro sem que eu me desse conta? Acabo de entrar no bar digerindo a informação. 17 de outubro de 2017. Até ontem estávamos em 2016, felizes pelo avanço de 2015. Calendários e relógios não deveriam ser permitidos em bares. E, por falar nisso, noto as horas. 10h. Da manhã. Terça-feira, horário de verão. O sol derretendo as calotas de gelo das pessoas em São Paulo. Ainda assim, todas continuam me parecendo um pouco frias, ou vai ver sou eu. A sensação é de que passei todo o ano em estado letárgico, sem notar o transcurso de dez meses. Na verdade, houve alguns acontecimentos ao longo do ano. Se eu juntasse cada u...

Cena se cria

Rio de Janeiro dos anos 20. 20 do terceiro milênio, não vamos tão longe. Eu já trabalhava com o Sr. Cevite. Sentada à mesa ao lado da sua, eu involuntariamente ouvia todas suas conversas ao telefone, que iam como essa: "Te vi esses dias, vamos marcar um almoço, mas você engordou, hein... vai ter que comer salada." Confesso que vez ou outra eu me via encurralada entre o riso e a indignação. Em momentos mais difíceis, eu o via conter-se ao sentir que se exaltaria, dava uma resposta mais incisiva e, logo, recompunha-se para vestir novamente o manto social, enquadrar-se àquele contexto polido, ainda que com pouco jeito. A verdade é que tratava-se de um autêntico ogro, um ser sem muitos escrúpulos que, feito bicho adestrado, aprendeu a se comportar, pelo menos o mínimo para enganar a um primeiro momento. Certa feita, estávamos em uma roda de café, dessas em que alguns executivos se reúnem para dois dedos de prosa, falar dos projetos e debochar dos outros. Era o momento em...

37 horas

Estamos no segundo dia. Do ocorrido faz menos que quarenta e oito horas. Este texto tem o fim como o de vários outros. Não só o fim enquanto objetivo, mas também o fim enquanto final. Vocês verão. Digo que verão porque enquanto transcrevo essas divagações, sinto que lhes transmito muito do que já conhecem de mim. Anos se passam e pessoas são substituídas, mas eu sigo sendo eu. Claro, há profundidades em mim que talvez eu ainda não conheça, mas de todos aqueles aspectos que já saltitaram antes, um por um é mantido. Todos os fragmentos de mim que me formam permanecem aqui. E aí se incluem meus erros. Estes, em forma de feito fora do parametrizado, muitas vezes tiveram um roteiro. Chego a arriscar que costumo sair de casa com esse roteiro pronto. Roteiro do erro. A verdade é que ele só leva esse nome porque traz em si algumas disparidades, mas, se querem saber, o gosto é de vida. Vida pulsante e viva. E nem preciso dizer que erraria novamente, se assim pudesse. Notem que, apesar das seme...

Sapos

- Sabe que andei pensando e... bom, cheguei à conclusão de que você é como um livro do Dostoiévski. Parece interessante, cheio de palavras difíceis, se adapta bem ao frio, combina com café, traz aquela faísca de cultura, como se, apenas por estar perto, fosse me tornar, por consequência, também mais interessante. Porém, é chato pra caralho. "Como assim? Tá ficando louca? Dostoiévski! Não fale mais isso perto de ninguém. Dostoiévski, cara" É, certamente não falarei mesmo. Inclusive, na minha estante de casa tem no mínimo uns quatro livros do russo, que guardo há anos. Alguns lidos, outros intocados. O que fazemos quanto à chatice de Dostoiévski? Ignoramos, ora. Na verdade, sequer admitimos para nós mesmos. No fundo, temos em mente que Dostoiévski é muito mais interessante do que jamais poderemos ser e, claro, nos enchemos de culpa por não nos sentirmos envolvidos na trama do autor, tampouco fazer algumas concessões para gostar dele ou, ainda, cair no sono durante a leitura. L...

Das Relações Interpessoais Transitórias

Sim. Transitórias. Aquelas que duram pouco e que dispomos de um arcabouço mínimo de conhecimento sobre o indivíduo contraposto (assim os chamarei), além de um tempo ínfimo para traçar nossas impressões valorativas. Tenho pra mim que o imperativo responsável por reger tais interações é o instinto. Passarei, pois, a defender o papel de importância máxima desempenhado por esta engrenagem automática e dotada de pouco reconhecimento. Comecemos do começo. Tem-se que ao primeiro contato visual compartilhado com um indivíduo contraposto é estabelecida uma comunicação rica, porém, de interpretação duvidosa. Duvidosa porque não confiamos em nós mesmos, não vamos por aquilo que nossas entranhas nos fazem sentir, tampouco por aquilo que nosso peito grita. Sempre atribuímos tais sensações às baboseiras de nossa mente e concluímos com nosso autodiagnóstico de louco. Contudo, se depositássemos crédito em nós mesmos e seguíssemos nossa intuição, acertaríamos em nossas análises muito mais do q...

vida doce

shopping lotado coisa de cidade grande de pé na porta da confeitaria mais cheirosa do andar eu o espero pagar pelo bolo de nozes não temos mais pressa gosto da idade que alcançamos um riso bobo me percorre o rosto bem quando ele me olha e também começa a rir para mim somos dois bobos bobos alegres na fila do bolo de nozes

Besteira de gente grande

Noite de domingo. Sonolenta, eu ouvia sua voz ditando cada palavra daqueles textos que escreveu, enquanto eu mesma os lia antes de dormir. Sua voz doce tinha gosto dos seus lábios, que tinham gosto dos seus beijos, que, por sua vez, tinham gosto de amor. Amor que tinha cor. Cor de rosa, lilás, branco... qual era a cor daquele meu vestido? Não sei se coral ou vermelho, mas era cor que só se usa quando se ama e é amado. Ninguém transborda aquela felicidade colorida sem estar amando. Normalmente usa-se preto, no máximo cinza, bem se sabe. O amor era tão simples que parecia ser algo que se compra naquele velho mercadinho da esquina da casa dos seus avós. Mercadinho da família Silva, três irmãos e uma irmã, com uma cambada de moleque. Conhecem a gente pelo nome. Coisa que só se tem no interior. Podia-se entrar, pegar sua bala preferida e pendurar na conta, que nem nossa era. Nosso amor também não tinha conta em nosso nome. Nenhum acerto a se fazer, pois já estava tudo certo desde o primeir...

Pouco, muito pouco, importa

Tudo porque eu não conhecia Jung. Ora, e daí que eu não conhecia Jung? Eu poderia muito bem conhecer. Conheci outros. Conheço outros. Conhecerei outros. E agora conheço Jung também. Eu li Freud quando ainda estava no colégio, lá pelos 15 anos de idade. E Plotino? Duvido que manje alguma coisa de Plotino, mística ou qualquer outra merda dessas que antes eu achava o máximo e hoje não passa de história pra boi dormir, pelo menos pra mim. Também conheci Descartes muito nova e, desde então, cogito, ergo sum. Sinto a náusea que Sartre fala muito antes de ter lido suas obras. Rejeitei as ideias de Kant e Spinoza. Me apaixonei por Hume, mas me tornei cética muito antes de ter conhecido sua teoria, até porque, ele tinha razão, todo conhecimento útil sobre o mundo vem através do que experimentamos pelos sentidos. Tá vendo como tanto faz tudo isso? Tanto faz quem você leu ou quem você ainda tem pra ler.   Como amante da filosofia, sempre medi as pessoas pelo número de filósofos que ela...

Contornos

Dirigia sob os leves raios de sol da manhã, no som " Should have knwon better ", um chapéu de palha, óculos escuros e roupas largas. Sem pressa, seguia pela via da direita. De vidros abertos, deixava o vento tocar seu rosto, enquanto inspirava e expirava com uma calma que experimentava de forma bem própria. Se não precisasse se atentar à estrada, fecharia os olhos para sentir melhor aquele momento. No banco de trás, algo com flores e essências, frutas e legumes com aspecto de recém colhidos de alguma horta cultivada por mãos caprichosas. O dia tinha cheiro de domingo, mas não qualquer domingo, não aquele domingo de quem vive a segunda-feira com pesar. Era um domingo de paz. A idade trouxe, além dos cabelos brancos, a sabedoria, ensinou a entender melhor a vida e aceitar os seus contornos. Pouco mudara, mas muito amadurecera. Não podia pedir por mais. Entendia, finalmente, que o amor é mesmo misterioso e, quando é vivido no presente, não é possível classificá-lo, dar nome, ...

Os ovos

Segunda-feira, meio dia. O sol estancava-se feito sangue no céu, enquanto o ar seco mesclava as cores do dia amarelado com a sujeira ramerrame do centro. Na escadaria da igreja principal, os mendigos se esticavam após o almoço de migalhas, uns rindo, outros agonizando. Verdadeira fotografia do cotidiano em seu mais genuíno aspecto. Desviava dos vendedores ambulantes, que se jogavam aos pedestres, tentando lhes empurrar qualquer bugiganga. Passou por uma senhora, de uns setenta e pouco anos, que lhe deu um sorriso e uma piscadela de olhos. Quis rir em retribuição à pobre velha, mas suas feições entristecidas não conseguiram demonstrar nenhuma reação. Sentiu-se mal pelo descaso que involuntariamente transmitiu.  Era de se culpar por qualquer besteira e naqueles últimos tempos vinha se culpando por tudo, desde a planta que deixou morrer na sua casa por esquecer de regar, até o jogo que não assistiu com a camisa de sempre e seu time perdeu. Nunca acreditara em sorte, mas se fosse ...

Quatro

Eram quatro. Quatro estranhos entre quatro paredes. Quatro realidades distintas postas a se confrontar. Quatro interesses diversos que se encontravam em dimensões comuns, porém cruzadas, proibidas e encobertas. Já marcavam quase 8h da manhã e as primeiras impressões do domingo iam chegando de mansinho. O céu ia se abrindo num cinza frio, invadindo a sala de luz pelas janelas completamente abertas, enquanto as cortinas se balançavam com o vento. Encaravam uns aos outros e já não tinham tanto o que falar. Os defeitos de cada um haviam ficado expostos nas últimas horas, quebrando todo o frisson que a perfeição do desconhecido causa. Há cerca de uma hora antes, olhava pela janela e notava uma fotografia da cidade, marcada pelos aspectos daquele lugar e do momento, algo completamente novo. Pensava nada ter a temer, era justo que se lhe aproveitasse a vida como bem entendesse, livrando-se, posteriormente, de qualquer consequência ou remorso, coisa que não era hora de se preocupar. Além ...

Em síntese o que sempre me pareceu tão claro

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Sofia

Sentia pisar em nuvens. Seu caminhar nunca foi tão leve. O vento soprava a seu favor, a estação era sua preferida. Primavera. O céu estava bem azul, mas de alguma forma, o ar tinha um aspecto cor-de-rosa, talvez pelas flores de cerejeira que se espalhavam pelo percurso. Lembrou-se de Titãs, "há flores em tudo que eu vejo", e seguiu cantarolando enquanto esbanjava despretensioso charme em seus óculos escuros. Seus passos confiantes inspiravam quem a visse. Houve uma garota que por ela passou e tentou notar todos seus detalhes, talvez numa intenção de entender um pouco sobre felicidade, mas felicidade não se explica e, muito menos, inspiração. Dizem que inspiração sequer existe, não passando de um punhado de ideias desconexas que se explodem num dia de tédio, causando algumas conexões. Mas aquele não era um dia de tédio. Talvez a inspiração seja, então, um reflexo da felicidade quando alcança um patamar de independência. Quando, a despeito de qualquer infortúnio em constância, ...

Acasos do amor

Brincávamos de fazer amor à sombra das árvores. Víamos as folhas serem levadas pelo vento, de um lado para o outro, e falávamos sobre aquela dança. Com a ponta dos dedos indicávamos o percurso que faziam. Lá se vão e eis que para aqui sempre se volvem. Dizíamos que aquele era um reflexo do nosso caminho. Deixamos o acaso nos levar, assim como as folhas deixam o vento - comparávamos.  Seus olhos me fitavam intensamente, com certo brilho e ternura, enquanto minhas pupilas se dilatavam, em verdadeira resposta química à paixão.  - Que é o amor senão isso que temos? - O amor é saber que isso não é algo que temos. - O que quer dizer com isso? - indagou-me. - Ora, o amor é algo que nunca se tem, impróprio pra esse verbo possessivo. O amor é a plena ciência de que isso é agora e, ainda assim, não tememos. - Mas você me ama? - Claro! Tal como nunca me amará de volta. - Por que pensa assim? - Porque sei o quão de mim você não conhece e, desde já, peço desculpas. - Qu...

Preia-mar

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À deriva Como se não houvesse nada abaixo de meus pés Ou como se tudo que há pudesse me engolir sem dor Sinto o consumo do espaço em minhas dimensões Meu corpo em um equilíbrio infantil O vento forte que me derrubaria sem esforço Meus olhos se fecham consentindo Em um salto permaneço intacta Vejo que posso flutuar A virada ponta-cabeça repentina Eu sou a ponte sobre as águas turbulentas Deito-me para a maré passar.

Buraco

O dia seguia ameno, as cores frias mesclavam-se ao ar denso, deixando a sensação de estarmos vivendo mais uma tarde que não seria lembrada e, se eventualmente fosse, faríamos questão de esquecê-la novamente. Os caminhos estavam bem delineados no trilho, seguíamos feito máquinas bem programadas, personificando aquelas que a Revolução Industrial nos deixou de herança. Normal. Acostumamos a usar coleiras e já não nos sentíamos revoltados pelo puxão que, vez ou outra, poderia ser mais forte.  O descaso se estampava em nossas caras que, cansadas pelo desgosto, já não manifestavam muitas contradições. Sabíamos que os reis e rainhas do baralho eram como nossos donos – sim, fomos feitos números ao longo dos séculos sem que nos déssemos conta – e por isso, poderiam nos conduzir como bem quisessem, do contrário, padeceríamos às mazelas mundanas. De toda a multidão, às vezes um ou outro se destacava. Os curingas. E logo hão de pensar que pelo trabalho bem prestado, o que não poderia se...

Paródia reflexiva - Camões às avessas

A raiva é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói, e não se sente; é um contentamento descontente, é dor que desatina sem doer. É um não querer mais que bem querer; é um andar solitário entre a gente; é nunca contentar-se de contente; é um cuidar que ganha em se perder. É querer estar preso por vontade; é servir a quem vence, o vencedor; é ter com quem nos mata, lealdade. Mas como causar pode seu favor nos corações humanos amizade, se tão contrário a si é a mesma raiva? 

Caótica quietude

Torpor na volta para a casa. Seus sentidos estavam dopados de apatia, enquanto o ônibus se balançava barulhento. O queixo apoiado sobre as mãos demonstrava não só o descaso pelo momento, como a frustração do dia. Era o fim de uma segunda-feira tal como outra qualquer. Dia de se retomar a rotina como se ela nunca houvesse sido tocada. Ignorar que a adrenalina experimentada se fora junto das primeiras horas do domingo e se conformar com o marasmo e a monotonia contundente. O trânsito intenso não era capaz de lhe fazer mexer um músculo sequer da face, suas expressões estavam estagnadas em neutralidade. Tudo que pensava era em como aquela euforia havia ido embora, sem deixar nem um caminho para ser seguida de volta, intocável, a depender exclusivamente do acaso.  Que os dias já lhe propiciaram boas surpresas, era verdade. Mas não havia como acreditar em coincidências extremas em repetição. Já fora suficientemente espantoso que uma vez houvesse acontecido. Imagine duas. Diferen...